Da capital ao interior: o que aprendi com o prof. José sebastião sobre a "plenitude" da cirurgia moderna
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Para o jovem cirurgião que encerra sua formação em centros como São Paulo ou Ribeirão Preto, a conclusão da residência frequentemente vem acompanhada de um dilema silencioso. Existe o temor de que, ao deixar o brilho tecnológico das metrópoles, o profissional mergulhe em um vácuo de relevância, perdendo o acesso à inovação e ao networking que definem uma carreira de elite.
No entanto, a trajetória do Professor José Sebastião — Titular da USP e uma das vozes mais respeitadas da cirurgia brasileira — nos convida a subverter essa lógica. No início de sua carreira, o Professor não buscava o conforto do que já estava consolidado; ele desejava o Tocantins. Sua ambição era fundar um serviço do zero, desbravar um território onde a medicina ainda não havia se tornado rotina. Embora tenha permanecido na USP a pedido de seus pares, essa inquietude moldou sua visão: a excelência não é uma coordenada geográfica, mas uma postura técnica e humana.
A plenitude do olhar sistêmico: da capital ao interior
O interior não deve ser confundido com um espaço de carência. Pelo contrário, é o front da resolutividade. Enquanto a medicina nos grandes centros tende a ser fragmentada em micro-especialidades, o cirurgião que atua fora das capitais é confrontado com o problema em sua plenitude.
O Professor Sebastião, que liderou a transição do HRAC (Centrinho) de Bauru para o Sistema Único de Saúde sob a gestão do reitor M.A. Zago, defende que a prática longe das metrópoles permite uma conexão mais profunda entre o saber técnico e a necessidade social. No interior, a cirurgia recupera o que muitas vezes se perde na fragmentação: o afeto e a proximidade.
"No interior ainda se faz uma medicina e uma cirurgia que vem junto com o afeto, com a proximidade... as coisas não são apenas centradas na expertise, são centradas no paciente."
A inovação como resposta ao acesso
Um exemplo pragmático dessa visão é o modelo de "cirurgia dois-em-um" para cálculos na vesícula e no canal biliar. Em centros altamente fragmentados, o paciente muitas vezes enfrenta duas internações e duas anestesias distintas — uma para a endoscopia e outra para a cirurgia.
No modelo defendido pelo Professor Sebastião em Ribeirão e Bauru, a necessidade de otimizar recursos e ampliar o acesso forçou a inovação. O cirurgião assume a responsabilidade integral, tratando ambas as condições em um único ato, frequentemente em regime ambulatorial. Aqui, a tecnologia não é um fim em si mesma, mas uma ferramenta para garantir eficiência e custo-efetividade. A resolutividade torna-se a maior prova de competência técnica.

Coragem, imprudência e o fim do isolamento
Muitos residentes temem a solidão da decisão no interior. Contudo, o Professor estabelece uma distinção vital: coragem técnica é ter segurança na própria competência e no suporte assistencial disponível; imprudência é ignorar os limites do sistema.
Hoje, o isolamento é um mito. Um dos legados mais valiosos da pandemia foi a consolidação da tele saúde. Redes ágeis conectam cirurgiões em cidades como Franca, Barretos e São Carlos a centros de referência em tempo real. Reuniões clínicas online e discussões por aplicativos permitem que o suporte especializado chegue ao leito do paciente, independentemente da distância. A rede de cuidado hoje é ubíqua.
Operar a pessoa, não apenas a patologia
Ao refletir sobre seus 40 anos de carreira, o Professor observa uma mudança de paradigma. No passado, operava-se a "doença" em corpos mais resilientes. Hoje, o desafio é operarmos "pessoas doentes". O envelhecimento populacional e a prevalência de comorbidades como obesidade e diabetes exigem que o cirurgião moderno domine a reabilitação pré-operatória e o tempo exato da intervenção.
A angústia contemporânea reside na compreensão de que, por vezes, a técnica comporta a cura, mas o corpo do paciente não comporta a técnica. O cirurgião precisa da humildade para aceitar que a cura técnica nem sempre é viável, priorizando o bem-estar do doente sobre o triunfo do procedimento.
A vida intelectual como âncora
Para o Professor Sebastião, o cirurgião não pode ser "egocentrado". A excelência exige uma bagagem que transcenda o hospital. Ele recomenda duas leituras fundamentais:
O ponto de mutação (Fritjof Capra): Essencial para compreender a interconexão das ciências e a importância de um olhar menos reducionista.
A vida intelectual (Sertillanges): Uma obra que ensina como a filosofia e as ciências sociais humanizam a prática biológica, mantendo o médico conectado à essência humana.
O desafio de transformar realidades
A mensagem final para a nova geração é um chamado à ação. A residência não deve ser vista apenas como um passaporte para os cargos prontos da capital. Inspirado pelo conceito do "Mais Especialistas", o Professor encoraja os jovens médicos a terem a ambição de transformar suas regiões de origem em novos polos de referência.
A tecnologia e a conectividade removeram as fronteiras para a excelência. Resta agora uma escolha pessoal e ética: você quer ser apenas mais uma peça em uma engrenagem fragmentada na capital, ou deseja ser o motor de transformação da saúde em uma comunidade que realmente precisa do seu talento? O interior não é o lugar onde a carreira termina; é onde a medicina plena começa.
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