Epônimos cirúrgicos: quem realmente está por trás do nome?
Madrugada, sala de cirurgia. Alguém pede um Kelly, depois uma válvula de Doyen, e a equipe se prepara para uma manobra de Mattox. Em poucos minutos, quatro ou cinco sobrenomes atravessaram a sala sem que ninguém pensasse em quem eram aquelas pessoas.
Para muitos cirurgiões, epônimo é vocabulário de prova: um nome que se decora, se associa a uma técnica e se esquece. A história por trás desses nomes costuma ser mais torta, mais humana e mais útil do que parece.
Esse foi o tema do episódio #211 do Mania de Cirurgia, com o Prof. Dr. Valdir Zamboni, cirurgião geral e do trauma formado pela USP, com atuação no Hospital das Clínicas da FMUSP, em conversa com Carlos Menegozzo, Diego Adão e Adriano Pflug.
Para que servem os epônimos cirúrgicos, afinal?
Zamboni parte de uma ideia simples: os nomes que repetimos no centro cirúrgico nunca saíram de lá. Toda vez que alguém abre um afastador de Finochietto ou indica uma operação de Hartmann, invoca alguém que, em outra época, tentou resolver um problema concreto.
"A cirurgia ainda caminha sobre os ombros daqueles que operam conosco".
O livro que ele prepara nasceu das perguntas dos próprios residentes: quem foi Fournier, como trabalhava, alguém havia descrito aquilo antes? Por isso, os epônimos cirúrgicos guardam contexto: a dificuldade técnica da época, a solução encontrada e os limites de quem a propôs.
Esse contexto tem valor prático. Saber por que uma técnica surgiu ajuda a reconhecer quando ela ainda faz sentido e quando a evidência já apontou outro caminho.
No episódio, Valdir Zamboni conta as histórias por trás de Hartmann, Mattox, Finochietto e de um cirurgião brasileiro conhecido como "bisturi de ouro".
O nome conta quem descreveu primeiro?
Nem sempre. Zamboni lembra que a história da cirurgia está cheia de créditos trocados: "Tem muito caso assim. Alguém descreveu, mas foi outro que levou a fama."
O exemplo mais claro é a arcada de Riolan. No episódio, ele observa que a estrutura teria sido descrita por outro anatomista, depois da morte de Jean Riolan. A literatura vai na mesma direção, e vai além: uma revisão de Lange e colaboradores (2007) mostrou que o termo é usado de forma tão inconsistente, para vasos diferentes, que os autores sugeriram abandonar o epônimo e descrever a conexão entre as mesentéricas superior e inferior pelo seu trajeto anatômico.
Na prática, quando um laudo ou um colega fala em "arcada de Riolan", vale confirmar de qual vaso se trata antes de planejar uma ressecção colônica ou um abaixamento.
Outro caso citado é a manobra de Cattell-Braasch, que, segundo Zamboni, deveria se chamar Braasch-Cattell. Aqui cabe um contraponto: o registro publicado mais conhecido é o artigo conjunto de Cattell e Braasch, de 1960, sobre a exposição da terceira e da quarta porções do duodeno. A disputa de prioridade, por ora, pertence mais à tradição oral do que a um documento verificável.
Operação de Hartmann: o que mudou em um século?
Henri Hartmann (1860 a 1952) foi um cirurgião francês prolífico, que escreveu de ferimentos de guerra a câncer gastrointestinal. Seu nome ficou ligado a uma operação em dois tempos: ressecção do segmento doente, fechamento do coto distal e colostomia terminal.
Zamboni resume o paradoxo da técnica: "Costumo brincar com os residentes que a cirurgia de Hartmann poderia ser realizada por um interno iniciado na arte de operar. O problema é reconstruir."
A vantagem é a segurança: remove o foco e evita uma anastomose em condições desfavoráveis. O preço é uma segunda operação maior, com coto retal retraído e difícil de identificar. Parte dos pacientes nunca chega à reconstrução e fica com estoma definitivo.
No episódio, o Hartmann aparece como opção ainda frequente na urgência. A literatura recente relativiza esse papel, ao menos na diverticulite perfurada. Ensaios randomizados como o DIVERTI (2017) e o LADIES (2019) compararam Hartmann com ressecção e anastomose primária, com ileostomia de proteção, em pacientes selecionados com peritonite. Os resultados sugerem mais pacientes com trânsito reconstruído no grupo da anastomose, sem aumento claro de mortalidade.
O Hartmann continua tendo lugar, especialmente no paciente instável ou com condições locais muito desfavoráveis. A diferença é que hoje ele deveria ser uma escolha, e não um reflexo.
Manobra de Mattox e classificação de Björck: o nome ajuda a decidir?
Kenneth Mattox, professor emérito do Baylor College of Medicine, chefiou por décadas o serviço de trauma do Ben Taub Hospital. É coautor de Top Knife, livro que Zamboni considera leitura obrigatória para quem opera trauma. A ideia central que ele atribui a Mattox: no trauma, o julgamento do cirurgião salva mais vidas do que qualquer manobra.
A manobra de Mattox é a rotação visceral medial esquerda: cólon esquerdo, baço e pâncreas são mobilizados medialmente para expor a aorta abdominal e seus ramos, permitindo controle vascular rápido em hemorragias potencialmente fatais.
Durante a conversa, surgiu a dúvida se a manobra inclui o rim esquerdo. Zamboni defende que não. Vale um contraponto: as descrições técnicas trazem duas variantes, uma com o rim mantido no lugar e outra com o rim mobilizado junto, que melhora o acesso à face posterolateral da aorta suprarrenal e à origem dos ramos viscerais. A escolha depende do alvo vascular.
O mesmo raciocínio crítico aparece na classificação de Björck para o abdome aberto, que gradua a evolução por contaminação, grau de fixação das alças e presença de fístula. Zamboni reconhece o mérito de organizar um problema dinâmico, mas faz a ressalva: "Ela descreve muito bem e decide pouco."
Para ele, a pergunta que toda classificação deveria responder é direta: ela muda alguma coisa? Melhora a comunicação, prediz desfecho, define estratégia? Os próprios autores a apresentaram como linguagem comum para comparar séries e acompanhar a evolução do paciente, o que converge com essa leitura. Para a decisão de quando abrir e quando fechar o abdome, quem orienta é a fisiologia, como discutimos no post sobre os limites do exame físico na síndrome compartimental abdominal.
O que os mestres por trás dos nomes ensinam além da técnica?
Zamboni insiste que a história precisa ser contada com cuidado, para não transformar esses cirurgiões em heróis perfeitos. Hartmann, por exemplo, era dedicado aos doentes, mas ríspido e autoritário com os internos. Ernest Miles, da amputação abdominoperineal, ficou lembrado pelo oposto: gentil, habilidoso, defensor de cortar apenas o que se vê.
Enrique Finochietto, cirurgião argentino, criou o afastador que leva seu nome porque precisava liberar o auxiliar que afastava as costelas com as mãos. Ele também deixou "mandamentos" para cirurgiões, entre eles:
prestar o melhor atendimento possível aos doentes;
manter a autoridade médica conquistando-a;
praticar anatomia e cirurgia experimental;
ensinar sempre;
desapegar do orgulho, sem se sentir indispensável.
São ideias próximas das que discutimos em a filosofia da excelência e o cirurgião do futuro.
Para Zamboni, a grande virada veio em meados do século XX, quando o cirurgião deixou de ser apenas um técnico rápido e passou a entender fisiologia e resposta metabólica ao trauma, com o trabalho de Francis Moore e Margaret Ball. A evolução continua, e ele aponta o desafio atual: fazer o aluno examinar o doente antes de pedir a tomografia. E resume o padrão que espera de qualquer conduta: "O senhor tem dados? Se tiver, fale alguma coisa."
Por que isso importa no próximo plantão?
Conhecer a origem de uma técnica é uma forma de pensamento crítico. Ela revela que muitos procedimentos nasceram de restrições que já não existem, que créditos podem estar errados e que classificações elegantes nem sempre mudam a conduta. Epônimos são memória. Usados com consciência, ajudam a perguntar por que fazemos o que fazemos.
Qual epônimo você usa toda semana sem saber quem foi a pessoa por trás dele, e o que mudaria na sua conduta se soubesse por que aquela técnica foi criada?
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